Herói do guarda-chuva

kid-rainy

Por: Vanessa S.C.D

Mãos pequenas e firmes conduziam o lápis com entusiasmo, quando virava a folha do caderno era possível ver desenhos em alto relevo – causados pela pressão que a menina fazia para as letras darem vida as folhas.

Sua colega da direita trocava ordenadamente de cores fluorescentes para escrever o texto da lousa. Enquanto seu colega da esquerda havia copiado apenas algumas linhas, incompreensíveis, pois estava ocupado demais dedilhando cartinhas de jogo por debaixo da carteira.

 Alguns de seus amiguinhos olhavam para a janela, atentos a chuva intensa que escorria pela janela. As crianças começaram a se alvoroçar, afinal, eram quinze para meio-dia.

Apoiando a mão no queixo, o coleguinha da carteira da frente reclamou:

“Ah não! Está chovendo! ”

Pessoal, guardem o material. Não se esqueçam de fazer a tarefa! Até amanhã.

A criançada guardou o material o mais depressa possível, tão rápido que alguns objetos ficaram esquecidos: uma garrafa d’água, um caderno de ciências e uma canetinha…

Aninha, ao contrário, arrumou tudo com muita calma, já que não queria se esquecer de nada. Ter que voltar a sala mais tarde, talvez, significasse perder aquele momento. Sim, dia de chuva! Ah, como gostava de dias molhados!

Caminhou vagarosamente. No corredor começou a ouvir vozes, risadas, barulhos e gritos. Logo, avistou o aglomerado de crianças que bloqueavam o portão da saída. A maioria delas aguardava a chuva atenuar para que pudessem ir embora, outras, contavam até três, tomavam coragem e corriam.

Alguns pais gritavam do carro: – “Corre! Você não é feito de açúcar”, ‘Vamos, estamos atrasados! ”. Assim, os pequenos arrastavam suas enormes bolsas que tremulavam pela calçada irregular.

Havia uma fila de carros no meio da avenida, pais aguardando seus filhos.

Aninha observava tudo do portão, mas nunca entendia o porquê de tanta pressa.

O céu começou a tingir as nuvens de cinza escuro, a garôa ficou mais intensa, sentia rajadas de vento balançarem seus pequenos cachos, as folhas pareciam dançar com a chuva, navegando calçada a baixo.

A pequena menina esticou os finos bracinhos e tocou a chuva, sentiu pingos gelados e firmes escorrerem por entre seus dedinhos.

Num estante, avista um homem alto e magro, bem longe, caminhando com um guarda-chuva preto enorme. Aninha, então, pede licença. O aglomerado de alunos se abre. As crianças olham atentas para a garota. Ela fica bem próxima ao portão, seus olhinhos brilham de ansiedade a medida em que o homem se aproxima.

Sorrindo, ele a envolve em um  abraço caloroso.

Eles partem, abraçados, amparados pelo guarda-chuva. A cada passo, o barulho da escola se distancia e ambos só sentem a chuva e o tempo passar. O vento faz o tempo voar, mas Aninha nunca tem pressa, mesmo que agora precise de dois guarda-chuvas.

Pois, ela sabe que ele sempre virá buscá-la no portão, esteja aonde estiver. Toda vez que ela abrir uma porta, ele estará lá, esperando por ela, com um de seus melhores guarda-chuvas porque aquele homem é seu PAI! Seu herói dos dias de chuvas.

 

A maré do Olimpo

cadillac

Por: Vanessa S.C.D

As lembranças vieram à tona roubando-lhe o ar. Abre os olhos, assustada. Logo, tudo se apaga e cai. Desmaiada. Ouve alguém lhe chamar:

– Vamos, fale comigo!

-Ah? Quem é você? Aonde eu estou?

-Tente se lembrar – dizia uma voz grave e calma.

Cabelos fartos e sorriso largo – o rapaz a observava com atenção – ao lado da cortina que dançava com a brisa, a maresia adentrava através de uma grande janela de madeira.

O aroma proveniente da madeira escura se misturava ao odor de mofo e a brisa, dando uma agradável sensação de relaxamento.

Haviam muitas gavetas, retratos suspensos, quadros, estantes de livros que pareciam esquecidos há muito tempo, porém, um charmoso sofá revelava o estilo requintado do ambiente.

O rapaz fitava-a com curiosidade, num ímpeto, ligou a vitrola como se pudesse acordar as lembranças da encantadora senhorita adormecida. Ao som de Johnny Rivers – sorri e estende a mão em direção a dela. A bela jovem repousa os braços em seus ombros e ele a conduz com mestria, no compasso da canção: suave, constante e intensamente.

O contato das mãos firmes faz a moça de face rubra suspirar, virando a cabeça lentamente, assim, seus grandes olhos brilhantes penetram nos olhos dele. Acalorado, o moço tira a jaqueta e a puxa para mais perto de si, alcançando a respiração apreensiva e o coração acelerado de sua misteriosa parceira. Num vai e vem, girando e girando, para frente, para trás, para os lados e entrelaçando-se completamente.

Inesperadamente o disco acaba, e o tilintar do vinil acende – em ambos – uma chama intimista cintilando todo o espaço. Nesse instante, a moça pensava em quem seria esse rapaz tão gentil que lhe arrancava suspiros e a tirava da escuridão.

Os olhos dela permanecem imóveis, fixos nos dele, como duas estrelas desenhadas na atmosfera. Sua boca trêmula se morde de tensão. Inquieta, ela olha as horas e num embaraço total tenta ir embora, mas ele a segura pelo braço e lhe oferece uma taça de vinho.

No dia seguinte, ela esfrega os olhos como se pudesse tentar enxergar o que houve. O local preservava o aroma do vinho e o almiscarado perfume. Olha ao redor procurando pistas, enquanto o silencio paira no ar.

Com um sorriso enigmático ele a pergunta: – Você não se lembra mesmo de nada, não é?

Ela olha fixamente para o resto de vinho nas taças esquecidas na mesa junto com alguns papeis perdidos. Rompendo o silencio ela lhe lança um olhar desajeitado e sorri, chacoalha a cabeça para os lados e responde um rouco…não. Toca seus lábios com a língua em busca do sabor da noite anterior, sente o gosto do vinho ainda preso a boca, deixando-a sedenta.

Ele se levanta e senta ao lado dela. Coloca a mão em seu ombro e sussurra:

– Não dormi a noite toda.

O sussurro a faz arrepiar e confusa ela o questiona:

– Por quê ?

– Pois, não cabem dois nesse sofá. Sentei naquela cadeira e acompanhei a lua até o sol acordar o mundo.

 Ela ri e diz:  – A culpa é do vinho. Que horas são?

– 7 horas e 47 minutos.

– Ah, eu deveria estar a caminho do trabalho. Rapidamente ela recolhe seus sapatos e alguns papeis.

– Ei, esses  papeis são meus!

– Nossa! O que tinha no vinho, hein?

– Uvas amassadas por Zeus.

– Sério? Tomara que eu tenha ficado com a força dos Deuses para chegar rápido!

Ela sai apressada esquecendo a agenda no canto do sofá. Corre nas pontas dos pés, afundando na areia, tentando calçar os sapatos vermelhos. Entra em seu Cadillac e dá a partida no carro, enquanto ele caminha em direção a sua Indian.

De repente, ele corre em direção ao carro, pula a porta, e rouba-lhe um longo e demorado beijo. O sabor das uvas de Zeus faz com que a moça flutue acima do céu e em poucos segundos – como uma Deusa –  sentiu-se no Olimpo.

Entorpecida e totalmente desnorteada, ela recompõem-se. Acelera e parte, acenando. Ele a acompanha pelo retrovisor, encarando-a  com um sorriso no canto da boca, até perdê-la de vista.

Chegando na empresa, a moça corre ao toalete para se arrumar. Ao olhar-se no espelho, vê um corte em sua testa, então, pega sua bolsa e percebe que está úmida e encontra algumas conchas…

Entra no departamento e  logo  ao lado da impressora, encontra um envelope sem endereço. Abre-o. Assusta-se ao se deparar com sua própria agenda, resquícios de areia, páginas ensopadas e anotações borradas. Mas, havia uma frase nova e legível em meio as páginas onduladas:

A maré salvou você para mim.

Obrigado pela noite,

Zeus

Apartamento 52

chave

Por: Vanessa S.C.D

A madrugada quente de verão a impedia de dormir. Por isso, aproveitou para escrever alguma coisa, mesmo não estando em seu momento mais criativo. A única luz que via era a da tela do monitor. Escuridão. Mantinha os pulsos firmes no teclado enquanto observava o cursor do mouse piscar – sistematicamente – na página em branco.

De repente, ouviu o que parecia ser a campainha.

Então, ela se perguntou: “ o que faria alguém às 3h da manhã no seu apartamento…”

Um assaltante – é claro!

Decidiu que não atenderia.

Para o seu espanto, a campainha persistiu. Em seguida, uma voz familiar a chamou mansinho…

A moça arrepiou. Engoliu seco. Lavou o rosto rapidamente.

A voz desistiu de sussurrar.

Fez um café e voltou a sentar-se junto à tela do computador. Porém, antes que ela digitasse qualquer palavra a voz chamou novamente:

“- achou que eu não viesse mais?”

A voz insistiu: “ – achou que eu não viesse mais, né?”

Para certificar-se de que não estaria louca ela decidiu abrir a porta.

O coração disparou, a boca ressecou, as mãos suaram.

Abriu.

Seus olhos não acreditavam, os dele olhavam fixo para os dela. As mãos dele tocaram seus braços, deslizaram sob suas costas e envolveram-na num forte abraço. Um perfume almiscarado a entorpeceu, a barba roçava seu rosto, sua boca se misturava com a dele num frenesi embriagado, lento e contínuo.

Ele trancou a porta e atirou a chave sob a mesa.

Segurava-a com decisão de quem sabe exatamente o que está fazendo, no controle da situação.

E talvez fosse tarde – apesar de cedo – pensou, quando, notou que seus pés não sentiam mais o chão – Afinal, já flutuava dois palmos acima dele. Quando se deu conta ele a levava como quem segura o mundo em suas mãos.

Ofegante, fechou os olhos e sentiu os movimentos cadenciados, a textura das mãos grandes que a apertavam com disposição, os lábios se tocavam sem pressa, sem hesitação.

As mãos correndo-lhe junto à pele, fazendo o sangue ir mais rápido e mais quente, numas de subir todo à face, enquanto o ar do mundo todo lhe entrava pelas narinas e a fazia descobrir toda a capacidade dos pulmões.

Abria os olhos e via o rosto dele cheio de ensejo. Fechava-os novamente e sentia todos os músculos de seu corpo arderem de desejo.

A luz forte da manhã fez com que ela abrisse os olhos e visse a tela do seu monitor. Deu-se conta de que estava sentada na cadeira junto à mesa. Olhou ao seu redor. Nada. Ninguém.

Maximizou a tela em que estava escrevendo na noite anterior, deparou-se com uma frase:

“Eu vim pra sempre”

Assustada foi até a porta e verificou se a sua chave ainda permanecia na maçaneta. Sim, estava lá! Não aconteceu nada. Foi um sonho!

Saiu cantarolando, aliviada, coisa que durou alguns segundos…Olhou para a mesa da sala. Ficou imóvel.

Lá estava uma estranha c-h-a-v-e com um número colado.

“Apê.52”.